O Olho Selvagem de Picasso

De 22 de maio de 2016 a 14 de agosto de 2016, o Instituto Tomie Ohtake, localizado no Bairro de Pinheiros, em São Paulo, trouxe mais uma exposição a preço acessível (R$12,00) ao público – “Picasso: Mão Erudita, Olho Selvagem”. Mais uma vez, os paulistanos, os paulistas e os visitantes da cidade têm a oportunidade de presenciar obras raras e que dificilmente retornarão ao Brasil. O foco foi um dos maiores expoentes da arte moderna do século XX: o artista espanhol Pablo Picasso! Todas as 150 peças expostas fazem parte do conjunto do Musée National Picasso-Paris. Este museu francês, localizado na cidade de Paris, apresenta o principal núcleo de obras de Pablo Picasso, formado por duas grandes doações de seus herdeiros, nos anos de 1979 e de 1981. O acervo  do Musée National Picasso Paris contempla todas as fases de técnica e de produção de Picasso, que vão muito além do Cubismo, já que boa parte dessas obras faziam parte do acervo pessoal do artista. Picasso: mão erudita, olho selvagem trouxe um percurso pela vida múltipla do artista, desde seus primeiros rascunhos até seus últimos trabalhos. Definitivamente, Picasso é muito mais que “Guernica”!

Por que “mão erudita”? A mão erudita, como explica o folheto da exposição, é a habilidade que Pablo Picasso apresentou ao transitar por diversos estilos, maneiras de pintar, paletas cromáticas e gestos. E o “olho selvagem”? Refere-se à sua capacidade de observação, à sua imaginação que retratou desde “touradas espanholas à estatuária africana, da antiguidade aos rótulos de embalagens manufaturadas, da ópera à iluminura, assimilando e recombinando referências contrastantes” (Fonte: Folheto da Exposição). Pablo Picasso, ou melhor, Pablo Diego José Francisco de Paulo Juan Nepomuceno María de Los Remedios Críspin Crispiano de la Santíssima Trindad Ruiz y Picasso, nasceu em Málaga (Espanha) em 25 de Outubro de 1881 (Fonte: InfoEscola). Seu pai, José Ruiz Blasco, era professor da Escola de Belas Artes de La Coruña. Portanto, Pablo Picasso desde cedo teve contato direto com o mundo das artes

1. A EXPOSIÇÃO:

A exposição Picasso: mão erudita, olho selvagem foi subdividida em seções, que mostraram diferentes fases da vida do artista. Pode-se dizer que são vários “Picassos de Picasso”!

A visita se inicia com O primeiro Picasso. Formação e influências, mostrando os anos iniciais de seu trabalho. Nesta seção estava exposto o quadro L’Homme à la casquette (Homem de boné), feito quando Picasso tinha apenas 14 anos, em 1895, e ainda era aluno da Escola de Belas Artes de La Coruña. Este quadro era parte do acervo pessoal do artista, e talvez esse seja o motivo das marcas deixadas pelo tempo.

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Homem de boné (1895) (Foto: Tissiana Souza).

As primeiras obras como pintor retratam cenas cotidianas e familiares (como touradas e a vida nas ruas), retratos (individuais e coletivos) e caricaturas (Fonte: Quadro explicativo da exposição). Ainda jovem, antes dos 20 anos, Picasso toma como influência Henri Toulouse-Lautrec, Paul Gauguin e Edward Munch. Picasso rejeitava o naturalismo em suas pinturas e após uma viagem a Paris ocorrida no ano de 1900, o espanhol entra em 1901 na chamada Fase azul, onde rejeita o impressionismo de cores vivas, e passa a utilizar tonalidades frias e tristes (Fonte: Quadro explicativo da exposição). As pinturas da “Fase Azul”, que durou entre 1901-1904, dão a sensação de tristeza, dor, sofrimento e apresentam um aspecto sombrio (Fonte: InfoEscola). Foi um período no qual o artista passava por dificuldades financeiras e seu grande amigo Carlos Casagemas havia cometido suicídio. A representação de doentes, velhos, ladrões e mendigos eram bastante comuns em suas pinturas (Fonte: InfoEscola). Um quadro que representa muito bem a “Fase Azul” e que estava na exposição era La Mort de Casagemas (A morte de Casagemas,1901), onde seu grande amigo é retratado morto. 

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O sombrio "A morte de Casagemas" (1901) (Foto: Tissiana Souza)

O próximo Picasso da exposição era o Picasso Exorcista. As Senhoritas de Avignon. No ano de 1906, o artista passou suas férias de verão em Gósol, vilarejo localizado na região espanhola dos Montes Pireneus. É o momento em que Picasso reformula sua obra, passando a adotar simplificações do espaço e das formas (Fonte: Quadro explicativo da exposição), entrando na sua fase mais conhecida – o Cubismo – que tem como grande obra Les Démoiselles d’Avignon (As Senhoritas de Avignon, 1907), que faz parte do acervo do Museum of Modern Art de Nova York. Neste período, Picasso se dedica ao corpo feminino quase que exclusivamente. Entre 1907 e 1909, após Les Démoiselles d’Avignon, Picasso entra na chamada Fase Negra, na qual suas obras trazem uma visão sobrenatural do mundo, representadas pelas pinceladas cubistas (Fonte: InfoEscola). Um quadro da exposição que retrata essa fase é um estudo para As Senhoritas d’Avignon, onde o artista mostra toda a sua genialidade na vertente cubista.

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Estudo para as Senhoritas D'Avignon (Foto: Tissiana Souza).

 O Picasso seguinte era o Picasso Cubista. O Violão. As obras cubistas de Pablo Picasso certamente são aquilo que mais conhecemos sobre o artista! O Cubismo é um movimento artístico, criado por Georges Braque e Pablo Picasso no início do século XX (1907-1914). Segundo o Museu de Arte Contemporânea da USP, o cubismo foi “uma revolução estética e técnica tão importante para a Arte Ocidental quanto o Renascimento”. O Cubismo traz à tona o problema da representação de volumes coloridos em uma superfície plana. Segundo o site InfoEscola, nas obras cubistas, a natureza é pensada através de formas geométricas, sem a necessidade de uma representação obrigatória das formas tão como elas realmente são. Ainda que haja uma distorção das formas reais, estas não são abstratas, ou seja, ainda é possível fazer um reconhecimento dos objetos representados. Os quadros desta subdivisão da exposição conceberam muito bem a ideia do Cubismo através do violão, como L’Homme à la guitare (Homem com violão, 1911). Inicialmente, você poderia considera-lo um quadro abstrato que sem o nome seria difícil entender do que se trata. Porém, Picasso deixa algumas chaves de leitura ou atributos, que dão indícios para que o observador decifre seus desenhos. Difícil? Nem tanto! É só prestar atenção nos traços criados pelo artista, e você encontrará o violão e o homem!

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Homem com violão (1911) (Foto: Tissiana Souza).

O violão aparecerá em suas mais diferentes formas em diversos quadros e em uma escultura, mostrando que o autor dedicou-se exaustivamente a esse instrumento musical. 

Partimos para o quarto "Picasso de Picasso"! Desta vez, temos o Picasso Clássico. A máscara do antigo. Após os anos dedicados ao Cubismo, Pablo Picasso novamente renova seu estilo! Em 1919, aceita o convite de Serguei Diaghilev e colabora com o balé Pulcinella, elaborando os cenários, os figurinos e o pano de boca do espetáculo (Fonte: Quadro explicativo da exposição). Esta fase da vida de Picasso é marcada pelo seu casamento com a dançarina russa Olga Khokhlova, em 1918, e pelo nascimento de seu filho Paul, em 1921 (Fonte: Quadro explicativo da exposição). Na exposição podemos ver um belo quadro com seu filho ainda pequeno: Paul en Arlequin (Paul vestido de arlequim, 1924). Suas diversas ideias para o espetáculo Pulcinella também estavam expostas, como os desenhos do pano de boca e os diversos figurinos do balé.

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Paul vestido de arlequim (1924) (Foto: Tissiana Souza).

O Picasso seguinte era o Picasso Surrealista. As banhistas. Apesar de nunca ter se considerado um surrealista, no entanto, o artista já preparava as possibilidades deste movimento artístico, trabalhando em processos de experimentação (Fonte: Quadro explicativo da exposição). Entre 1928 e 1929, passou suas férias de verão em Dinard com a família. Problemas ocorreram neste período, pois a jovem de 18 anos Marie-Thérèse Walter, sua amante, também estava por lá! (Fonte: Quadro explicativo da exposição). Neste período, Picasso se dedicou a uma série de pinturas que retratavam os banhistas na praia. O artista deu ênfase também às cabines de banho, que faziam uma alusão aos encontros entre ele e sua jovem amante. Neste contexto, está o quadro Figures au bord de la mer (Figuras à beira do mar, 1931). Nesta seção também está exposto Deux femmes courant sur la plage (Duas mulheres correndo na praia, 1922). Já ao final da década de 1930, Picasso passa a usar tons escuros e os corpos parecem enrijecidos, um reflexo das condições políticas da Europa com a ascensão do Fascismo (Fonte: Quadro explicativo da exposição).  

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Duas mulheres correndo na praia (1922) (Foto: Tissiana Souza).

 

 O sexto Picasso é o Picasso engajado. Guernica. Guernica (1937) está exposto no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid. Nós felizmente já tivemos o prazer de ver pessoalmente a obra, que não pode ser fotografada. É impressionante pela suas dimensões: 3,49m x 7,77m. E arrepiante pelo seu caráter trágico! Foi criado para fazer parte do acervo do pavilhão espanhol da Exposição Universal de 1937 em Paris. Esta obra foi feita em um contexto político europeu de tensão e circunstâncias dramáticas. Picasso foi impulsionado a fazer esta obra após receber a notícia e ver as fotos publicadas como resultado dos bombardeios alemães sobre a cidade basca de Guernica. Este era também o período da Guerra Civil espanhola e faltava pouco tempo para o início da 2ª Guerra Mundial (Fonte: Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia). Suas tonalidades, em branco e preto, e os motivos presentes no quadro tem uma intensidade dramática. Fiquei emocionada quando vi o quadro pessoalmente! Sensações de arrepio tomaram conta do meu corpo ao ver um quadro que vi ainda muito jovem nas aulas de Educação Artística na escola.  O processo de criação de “Guernica” foi registrado pela musa de Picasso na época, Dora Maar. A documentação fotográfica mostra todas as etapas de elaboração do quadro. 

O próximo Picasso é o Picasso na resistência. Interiores e Vanitas. Durante o período da 2ª Guerra Mundial, o tema da morte é recorrente nas pinturas, esculturas e obras gráficas de Picasso. Além da situação política, María, sua mãe, falece em 1939 e ele se isola da vida artística parisiense até 1941. Sua nacionalidade francesa é negada em 1940, agravando ainda mais seu medo da ameaça política (Fonte: Quadro explicativo da exposição). 

O oitavo Picasso é o Picasso múltiplo. A alegria da experimentação. No verão de 1946, o artista conhece Georges e Suzanne Ramié, diretores da fábrica de cerâmica Vallauris. Picasso então passa a trabalhar com a argila, buscando aprender novas técnicas e habilidades (Fonte: Quadro explicativo da exposição). A partir de 1947, passa a trabalhar intensamente com cerâmica e gravura. As representações das corujas eram os principais elementos marcantes desta parte da exposição. Outro destaque é o mosaico de gravuras de uma cabra, com diferentes experiências de técnicas de fotogramas.  

Quem me dera ter uma coruja feita por Picasso decorando minha sala!!! (Foto: Tissiana Souza)

 

Depois de uma grande viagem pela vida do artista, chegamos ao Último Picasso. Triunfo do desejo. A fase final da vida de Pablo Picasso é marcada pelo erotismo. A sensualidade da figura feminina retorna com força ao seu universo imaginário. Edgard Degas é retratado em uma série, sempre reflexivo e observando as figuras femininas. Neste último “suspiro” da exposição, tem-se o quadro Le Baiser (O Beijo, 1969) e finalmente o Le Jeune Peintre (O jovem pintor,1972), feito dois anos de sua morte. Le Jeune Peintre fecha a exposição e seria a demonstração de uma saudação aos pintores do futuro. Faleceu aos 91 anos, no dia 8 de abril de 1973, na cidade de Mougins (França).

O Beijo (1969) (Foto: Tissiana Souza).

 

O jovem pintor (1972) (Foto: Tissiana Souza)

2. TOMIE OHTAKE - ORBIS TERTIUS:

 Desde 2014, o Instituto Tomie Ohtake tem uma sala dedicada permanentemente à artista que deu nome ao instituto. A exposição Orbis Tertius traz 7 quadros abstratos de diferentes períodos distintos da vida artística de Tomie. Todas as telas apresentam formas circulares e curvas, convidando o visitante a tentar decifrar os que há nessas obras. Não há títulos para as telas. O que há é uma interpretação poética literária unida a uma descrição formal da obra.

3. COMO CHEGAR:

-Metrô: O Instituto Tomie Ohtake está localizado na Avenida Brigadeiro Faria Lima, nº 201, Pinheiros São Paulo. A estação de metrô mais próxima é a Faria Lima (Linha 4 – amarela). Saia em direção à Rua Baltazar Carrasco. Você caminhará por 700m pela Avenida Brigadeiro Faria Lima até o prédio onde está o Instituto, que se destaca na paisagem por ser magenta.

Endereço

Av.Brigadeiro Faria Lima, 201, Pinheiros - São Paulo - SP, CEP 05426-100

Preços da Exposição

Inteira: R$12,00
Meia-entrada: R$6,00
Crianças até 10 anos e pessoas com deficiência: Gratuito

Gratuito todas as terças-feiras

Horário

De terça-feira a domingo, das 11:00 às 20:00 horas. Última entrada na exposição às 19:00.

Fechado às segundas-feiras.

Para mais informações

Instituto Tomie Ohtake:
http://www.institutotomieohtake.org.br/

Mapa de Transporte Metropolitano de São Paulo:
http://www.metro.sp.gov.br/pdf/mapa-da-rede-metro.pdf

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